Há 30 anos Titãs lançava o épico Cabeça Dinossauro

‘Faltava barulho na música brasileira’, dizem Titãs sobre ‘Cabeça dinossauro’

Disco que mudou carreira da banda faz 30 anos; álbum inspirou ‘Nheengatu’.
‘Polícia’ quase não entrou; ‘O que’ foi canção mais trabalhada; veja histórias.

Lucas Nanini Do G1 DF

Filme sobre Titãs será exibido no Centro Cultural Matarazzo (Foto: Divulgação/Titãs - A Vida Até Parece uma Festa)
Integrantes dos Titãs durante gravação de clipe da música “Cabeça dinossauro” (Foto: Titãs – A Vida Até Parece uma Festa/Reprodução)

Poucos álbuns são tão fundamentais para se entender uma banda com vasta discografia quanto “Cabeça dinossauro” é para os Titãs. Considerado um divisor de águas na trajetória do grupo e um dos mais importantes trabalhos da história do rock nacional, o disco acaba de completar 30 anos e ainda soa atual e cheio de energia.

O LP chegou às lojas no final de junho de 1986, “ano mágico”do rock nacional, que rendeu discos importantes para a cena, como “Selvagem”, dos Paralamas, “Dois”, da Legião Urbana, “Vivendo e não aprendendo”, do Ira, e “Rádio pirata”, do RPM. O ano também marca a estreia dos Engenheiros do Hawaii em disco, com o LP “Longe demais das capitais”.

“Cabeça” mostra o então octeto Titãs diferentes do que se conhecia da banda até então, deixando de lado a salada musical dos dois primeiros discos para expor uma obra mais coesa, com mais unidade.

Transitando entre o punk e o eletrônico, o hardcore e o reggae, o pop-rock e o funk, o disco apresentava um repertório que parecia fazer sentido do começo ao fim, ao contrário dos antecessores “Titãs”, de 1984, e “Televisão”, de 1985.

O álbum era o último previsto no contrato da banda com a gravadora. Se as vendas fossem parecidas com as dos discos anteriores, eles provavelmente iriam “para a rua”. Apesar do desafio, o grupo resolveu arriscar e buscar um som mais de acordo com o que os Titãs faziam no palco, sem pensar em sucesso e vendagens.

O guitarrista Tony Bellotto (identificado como “Toni” no LP original) e o vocalista Branco Mello chegaram a apostar uma garrafa de uísque sobre o sucesso de “Cabeça”. O primeiro achava que o álbum não alcançaria as 100 mil cópias vendidas – o que dava um disco de ouro, na época. Branco era o otimista.

Marcelo Fromer, Sérgio Britto, Paulo Miklos e Tony Bellotto, dos Titãs, durante gravação do disco Cabeça dinossauro (Foto: Pena Schmidt/Warner)
Marcelo Fromer, Sérgio Britto, Paulo Miklos e Tony Bellotto, dos Titãs, durante gravação do disco “Cabeça dinossauro” (Foto: Pena Schmidt/Warner)

“Eu achava que o disco não ia vender nada. O mercado na época era diferente, ainda tinha a regra de ‘não pode ter música com mais de tantos minutos’. Eu achava que não iam entender a gente, e o Branco levou a melhor. Mas perdi a aposta com o maior prazer do mundo”, diz Bellotto.

Eu achava que o disco não ia vender nada. O mercado na época era diferente, ainda tinha a regra de ‘não pode ter música com mais de tantos minutos’. Eu achava que não iam entender a gente, e o Branco levou a melhor. Mas perdi a aposta com o maior prazer do mundo”
Tony Bellotto, dos Titãs, sobre ter apostado com Branco Mello que o disco não teria sucesso

O álbum acabou rendendo aos Titãs o primeiro disco de ouro da carreira. Os dados sobre as vendagens não são confiáveis, mas é certo que “Cabeça” chegou à marca de 250 mil cópias em um ano e hoje já superou a faixa de 700 mil discos.

O álbum teve 11 das 13 faixas tocadas em rádio e sempre frequenta listas de discos fundamentais e dos melhores da história. Em 2012, nas comemorações pelos 30 anos da banda, a obra foi relançada com direito a versões demo de 13 faixas, incluindo 12 que entraram no disco e a inédita “Vai pra rua” – que quase fez parte do disco, mas foi substituída por “Porrada”. Os Titãs chegaram a tocar o álbum na íntegra na turnê daquele ano.

“Com o ‘Cabeça’, passaram a nos ver com outros olhos. Mas o disco não foi feito do dia para a noite, a gente não decidiu virar punk. Os ingredientes estavam presentes há um bom tempo, o desejo de nós era fazer algo focado nesse tipo de música”, afirma o vocalista e tecladista Sérgio Britto.

Para Bellotto, os Titãs já haviam encontrado o tipo de som no palco, mas não conseguiam materializar aquilo no estúdio. A partir de “Cabeça dinossauro”, a banda aprendeu a lidar com a pluralidade das referências sem perder a identidade.

Titãs se apresentam em Campinas (SP) durante Virada Cultural (Foto: Marcos Hermes)
Branco Mello, Sérgio Britto, Tony Bellotto e Paulo Miklos, as quatro cabeças restantes dos Titãs
(Foto: Marcos Hermes)

“O tempo mostrou que essa vertente estava no nosso DNA, por isso o ‘Cabeça’ é uma grande marca, com toda a coisa do questionamento, com a crítica que a gente vê nas letras, com o punk, mas também o reggae, o funk. Acho que nesse disco a gente achou o caminho.”

Choque gradual
Apesar da mudança de rumo e do choque que “Cabeça” provocou no mercado fonográfico, o sucesso dele não foi instantâneo. “Demorou a decolar. Só foi estourar mesmo depois do show no [teatro] Carlos Gomes, quando o lugar ficou completamente destruído. A sonoridade era mais difícil”, afirma o jornalista Luiz André Alzer, que escreveu ao lado da também jornalista H[erica Marmo o livro “A vida até parece uma festa”, biografia dos Titãs lançada em 2002, logo após a saída de Nando Reis da banda

Capa do álbum 'Cabeça dinossauro', de 1986 (Foto: Reprodução)
Capa de “Cabeça dinossauro” trazia “Cabeça
Grotesca”, de Leonardo da Vinci (Foto: Reprodução)

O quebra-quebra no teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, aconteceu porque o show atrasou por horas. A equipe de uma peça infantil em cartaz no mesmo espaço e no mesmo dia havia demorado para retirar os cenários, o que atrapalhou a montagem dos equipamentos dos Titãs e fez com o que o concerto de rock começasse mais tarde.. “Aquilo acabou sendo bom para a gente”, diz Bellotto aos risos.

Aos poucos, a banda começou a lotar os ginásios por onde passava. O guitarrista diz que o número de pessoas nos shows passou de 300 para “milhares” a partir de então.

“Quando estreou o show no Projeto SP, a gente esperava 300, 400 pessoas, e foi tudo vendido. E o público cantava todas as músicas. Para a gente aquilo foi um choque”, diz Britto. Segundo o tecladista, o álbum fez com que a banda ganhasse fãs além do que a execução em rádio e TV permitia.

As emissoras de rádio tiveram até resistência em tocar as faixas. A primeira música de trabalho, “AAUU”, foi boicotada em um primeiro momento. A situação mudou depois que o programa Fantástico, da TV Globo, exibiu o clipe.

Os Titãs no palco em show de lançamento do disco Cabeça dinossauro (Foto: Fabiana Figueiredo/Warner/Divulgação)
Os Titãs no palco de Belo Horizonte, em show de lançamento do disco “Cabeça dinossauro”
(Foto: Fabiana Figueiredo/Warner/Divulgação)

A segunda música de trabalho foi a eletrônica “O que”, com sua letra-poema circular. O produtor Liminha conta que ficou uma semana inteira trabalhando na composição, que tem bateria eletrônica e efeitos pilotados por ele (DMX e drumulator, como consta na ficha técnica).

Quando estreou o show no Projeto SP, a gente esperava 300, 400 pessoas, e foi tudo vendido. E o público cantava todas as músicas. Para a gente aquilo foi um choque”
Sérgio Britto, dos Titãs, sobre primeiros shows da turnê que promoveu o disco

“A gravadora não podia nem saber que a gente gastou tanto tempo em uma música só, fugiu totalmente dos padrões de trabalho. E ficou bem diferente do original, o Arnaldo mostrou para a gente no violão.”

Nas mãos de quem entende
Parte do sucesso da empreitada se deve justamente ao Liminha,  que depois trabalhou em outros discos da banda, tocou guitarra em álbuns ao vivo e foi até chamado de “o nono titã”. O ex-baixista dos Mutantes é apontado como um dos principais “culpados” pelo sucesso do álbum, aquele que soube transportar a energia da banda para a mesa de gravação.

É dele, por exemplo, aquela percussão ao final da faixa-título. O músico conta que começou a batucar em tudo o que via pela no estúdio. “Eu me lembro que peguei as baquetas e comecei a bater no chão, nas colunas do estúdio. Também fiz coisas na cozinha do estúdio, batia nas cadeiras, nas panelas.” O músico foi também responsável por ajudar a criar o solo de baixo de “Bichos Escrotos”, junto com Nando Reis.

“Eu me sinto um pouco pai do ‘Cabeça’, sim. Acho que ajudei os caras a encontrarem o caminho. Me lembro de quando eu os conheci, eu estava com a minha filhinha no colo e apareceram aqueles oito caras”, afirma Liminha. “Eu me lembro que eles chegavam no estúdio com muita confiança. Eles chegavam com as músicas nem sempre muito adiantadas, mas sempre trabalhavam muito para fazer o melhor.”

São José dos Campos completa 248 anos nesta segunda-feira (27) (Foto: Claudio Capucho/PMSJC)
Os Titãs após show da turnê “Nheengatu” em São José dos Campos, com baterista Mario Fabre (segundo da direita para a esquerda) (Foto: Claudio Capucho/PMSJC)

O fato de Liminha ser diretor artístico da WEA, gravadora dos Titãs, ajudou na aproximação de produtor e artista, mas o início da relação não aconteceu de modo tão harmonioso.

“Eu fiquei sabendo que o Sérgio e o [vocalista] Branco [Mello] haviam falado mal de mim no jornal, mas depois eles vieram falar comigo, me pediram desculpas e ficou tudo bem. Eu tinha muita vontade de trabalhar com eles, achava aquilo interessante, então a crítica não atrapalhou. Eles gostavam do meu trabalho. Foi meio molecagem deles, eu acho.”

Eu fiquei sabendo que o Sérgio e o Branco haviam falado mal de mim no jornal, mas depois eles vieram falar comigo, me pediram desculpas e ficou tudo bem. Eu tinha muita vontade de trabalhar com eles, achava aquilo interessante, então a crítica não atrapalhou. Eles gostavam do meu trabalho. Foi meio molecagem deles, eu acho”
Liminha,  sobre críticas que recebeu de dois dos Titãs antes de começarem a trabalhar juntos

“Não foi tão difícil a gente se acertar. Ele era diretor artístico da Warner e ele tirava som. Goste ou não, os trabalhos dele sempre tiveram qualidade e acabamento”, diz Britto.

Mesmo depois de se acertarem, houve uma certa rusga, quando eles já trabalhavam em estúdio. O motivo foi o tratamento que Liminha deu à música “Família”. Bellotto fala que o produtor deixou o reggae mais rápido e muito diferente do que os titãs tinham na cabeça. “No final, a gente viu que ele tinha razão, e a música ficou ótima.”

A obra do construtor
Hérica Marmo diz que os Titãs utilizavam o fim dos discos para dar dicas do que estava por vir. A banda já dava pistas no “Televisão”. Apesar dos temas românticos de “Sonho com você”, “Insensível” e “Pra dizer adeus” – que se tornaria hit mais de dez anos depois ao ser regravada no “Acústico” –, faixas como “Pavimentação  “Autonomia” e “Massacre” tinham como norte alguns elementos que podem ser vistos no disco de 1986.

“Acho que era meio isso. ‘Massacre’apresentava o ‘Cabeça’. ‘O que’ apresentava o ‘Jesus’ [não tem dentes no país dos banguelas, álbum de 1987], com aquele lado eletrônico. Acho que um disco fala com outro”, diz Hérica.

Paulo Miklos e Tonyi Bellotto se apresentam durante o show do Titãs, que abrem para os Rolling Stones, em São Paulo (Foto: Marcelo Brandt/G1)
Paulo Miklos e Tony Bellotto durante o show do Titãs (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Os trabalhos acabam mesmo tendo uma relação, mesmo quando é por conta do acaso misturado com o fator momento. “Bichos escrotos”, que abre o lado B do LP “Cabeça dinossauro”, era para ter sido gravada no primeiro disco. O grupo mudou de ideia porque o palavrão presente na letra poderia comprometer o acabamento do trabalho como um todo.

“Na época, a censura não apenas proibia, mas também multava. A gente preferiu não gravar porque a censura riscava o disco. Então a gente pensou: `Não tem razão de ser’. Se é para não ouvirem, se vai estragar o disco, a gente não grava”, afirma Nando Reis, que fazia parte dos Titãs na época, sendo um dos vocalistas e o baixista principal.

Os Titãs em show da turnê Cabeça dinossauro (Foto: Fabiana Figueiredo/Warner/Divulgação)
Os Titãs em show da turnê Cabeça dinossauro (Foto: Fabiana Figueiredo/Warner/Divulgação)

“Homem primata” é outra música “antiga” que entrou no disco. Um dos compositores é Ciro Pessoa, vocalista que resolveu “pular fora” dos Titãs pouco antes da banda entrar em estúdio para gravar o primeiro disco.

Com o “som vigoroso” no DNA desde anos anteriores, a banda ainda havia recebido uma injeção extra de incentivo para pesar a mão. A visão de mundo mudou depois que Bellotto e o vocalista Arnaldo Antunes foram presos em 1985, por porte de heroína.

O titã Paulo Miklos no estúdio Nas Nuvens durante gravação de Cabeça dinossauro (Foto: Pena Schmidt/Warner)
O titã Paulo Miklos no estúdio Nas Nuvens durante
gravação de “Cabeça dinossauro”
(Foto: Pena Schmidt/Warner)

“Isso, de certa forma, fez com que a gravadora olhasse para eles de uma forma negativa, mas eles souberam se aproveitar artisticamente disso”, afirma Hérica Marmo. “Depois, com o álbum pronto, eles mostraram para a mesma gravadora e disseram ‘olha, temos um disco assim, diferente de tudo o que já fizemos’ e aí receberam todo o apoio.”

Mais do que apoio, a visão do homem forte da WEA na época, André Midani, permitiu uma série de inovações na condução do disco. Um dos pontos de transformação foi o trabalho para a capa, uma das primeiras do rock nacional a não ter foto do artista, que teve tiragem com papel especial. O LP veio em formato de álbum, que se abria para expor letras e ficha técnica impressas.

“O André gostava muito de arte, achou que valia a pena. Eu sempre dei importância para essa coisa da capa, de colaborar com o sentido da música que está lá dentro, de dialogar, batalhei por isso”, diz Britto, que foi quem teve a ideia de colocar dois desenhos de Leonardo da Vinci na capa e na contracapa.

“Eu tinha esse livro de esboços do da Vinci, eu havia estudado artes plásticas, achei do caralho e comentei com o Branco. Quando fui tentar fazer, ver se era viável, pela cópia do livro, vi que ficava meio granulado. Um amigo do meu pai, que vivia na Europa, mandou o acetato para a gente, do Louvre, e deu certo.”

Eu não canto nos Titãs. Quando apresentei ‘Polícia’ para a banda, nenhum dos vocalistas se apresentou para cantar. Eu tinha imaginado o Paulo [Miklos] cantando, mas ele preferiu ‘Estado violência’. Aí grilou o Britto o fato de ele só estar cantando duas músicas, e ele acabou escolhendo ela”
Tony Belloto, sobre ‘Polícia’ quase ter ficado de fora de ‘Cabeça dinossauro’

Para quem precisa
A prisão de Bellotto e Arnaldo rendeu mais do que uma sonoridade mais agressiva. Uma das músicas foi meio que uma resposta do guitarrista para o episódio. Um dos maiores hits da banda, “Polícia” quase não entrou no disco porque ninguém enxergou potencial nela em um primeiro momento.

“Eu não canto nos Titãs. Quando apresentei ‘Polícia’ para a banda, nenhum dos vocalistas se apresentou para cantar. Eu tinha imaginado o Paulo [Miklos] cantando, mas ele preferiu ‘Estado violência’. Aí grilou o Britto o fato de ele só estar cantando duas músicas, e ele acabou escolhendo ela”, diz Bellotto, autor do hit.

“Ninguém queria cantar. Quando o Tony mostrou a música, mostrou no violão, ela não parecia ser aquilo que na verdade era. A gente pode se enganar, acho que não estávamos com os olhos abertos para ver suas virtudes”, diz Britto.

Até na hora de registrar a voz, “Polícia” acabou meio que deixada em segundo plano. “Tive pouco tempo para gravar. Passei a voz, chequei o microfone e cantei. Fiquei meio puto, irritado, porque quando chegou a minha vez tive só três minutos.”

Britto também ficou incomodado porque colocou a voz na música enquanto Liminha conversava sobre pesca submarina com o vocalista da Blitz, Evandro Mesquita, que visitava o estúdio “Nas Nuvens” naquele dia. “Parecia que ele não estava se importando muito, por isso acho que cantei com mais raiva.” O resultado é o que ficou para a história.

Os Titãs no palco em show de lançamento do disco Cabeça dinossauro (Foto: Fabiana Figueiredo/Warner/Divulgação)
Os Titãs no palco em show de lançamento do disco “Cabeça dinossauro”, em 1986
(Foto: Fabiana Figueiredo/Warner/Divulgação)

Contra as instituições
Outra música que poderia ter ficado de fora foi “Igreja”. Única composição feita exclusivamente por Nando, ela foi uma das últimas a entrar no disco, causou um certo atrito entre os integrantes – Arnaldo não queria gravá-la e chegava a sair do palco durante os shows, no momento em que ela era executada. Com o tempo, o vocalista se rendeu.

Nando conta que compôs a música em um violão de nylon na casa da mãe, no Butantã, em São Paulo. “Naquele ano foi quando Godard lançou o filme ‘Je vous salue, Marie’, houve um boicote contra o filme e o Roberto Carlos, de quem eu sou fã incondicional, escreveu algo apoiando o boicote. Aquilo, de certa forma, ia contra os meus ideais, a questão da liberdade. Isso me motivou a escrever essa música.”

Esse ‘ataque conceitual’ às instituições, de certa maneira, foi casual. Há uma dose de coincidência, que não era aleatória, pela época”
Nando Reis, ex-baixista dos Titãs, sobre temática do disco ‘Cabeça dinossauro’

A crítica às instituições é uma das tônicas do disco, que tem alvos como o estado, a família e o capitalismo selvagem, tudo cantando e berrado de forma direta, crua, com energia. A faixa-título tem apenas três frases: “Cabeça dinossauro / Pança de mamute / Espírito de porco”.

“Esse ‘ataque conceitual’ às instituições, de certa maneira, foi casual. Há uma dose de coincidência, que não era aleatória, pela época”, afirma Nando.

O período era de redemocratização no país. José Sarney chefiava a nação após a morte de Tancredo Neves. A população não elegia o presidente. O disco começou a ser gravado no mês seguinte ao anúncio de um plano econômico que pretendia acabar com a inflação, o “Plano Cruzado”, o que acabou contribuindo também para o sucesso do disco.

“Tem essa coisa da síntese. Claro que boa parte da força está na música, a gente encontrou uma estética nossa, mas a gente também sempre quis letras que diziam alguma coisa, de forma direta.”, diz Bellotto.

Uma das canções do disco tem pouco mais de 30 segundos. “A face do destruidor” é um poema de Arnaldo que foi cantada por Miklos “em um fôlego só”, com a música tocada ao contrário, no “reverse”, “de trás para frente”.

Titãs apostou nas músicas do álbum Nheengatu (Foto: Waldson Costa)
Os Titãs, em show que promoveu o álbum “Nheengatu” (Foto: Waldson Costa/Divulgação)

Novas cabeças
As três décadas desde o lançamento não foram capazes de tirar “Cabeça dinossauro” da vitrine, seja pelo conceito, relevância, sonoridade e por ser uma referência para os roqueiros das gerações seguintes. “É um disco extremamente atual. Esses dias eu estava vendo, tem várias músicas que são tema de programas de TV hoje”, afirma o jornalista Luiz André Alzer.

O traço atemporal do disco acabou até mesmo inspirando os próprios titãs no mais recente trabalho em estúdio, lançado em 2014. “‘Cabeça’ foi inspiração para o ‘Nheengatu’, com certeza”, diz Bellotto. “O rock estava em baixa na mídia e a gente quis viver a experiência do ‘Cabeça’.”

Faltava barulho na música brasileira, essa coisa da vontade de cantar gritado. Isso não existia, ou existia pouco. No mainstream, com isso de ter vocais gritados, o ‘Cabeça’ foi exceção. Acho que essa foi uma grande contribuição nossa”
Sérgio Britto, dos Titãs

Os temas “polícia”e “igreja”, que geraram “Fardado” “Senhor”, desta vez dividem espaço com outros, como pedofilia e violência contra a mulher. “A gente quis resgatar um pouco, os riffs, os vocais. Foi proposital”, diz Britto.

Além de inspirar novos trabalhos, na opinião dos integrantes da banda e dos jornalistas que escreveram a biografia deles, “Cabeça” é importante por ajudar a redefinir o rock feito no Brasil.

“Faltava barulho na música brasileira, essa coisa da vontade de cantar gritado. Isso não existia, ou existia pouco. No mainstream, com isso de ter vocais gritados, o ‘Cabeça’ foi exceção. Acho que essa foi uma grande contribuição nossa”, afirma Britto.

Hérica concorda que os vocais de “Cabeça” estão entre os pontos mais marcantes, que permitiram a outras bandas brasileiras viver experiências nessa direção. “O Fred, dos Raimundos, falou que os backing vocals deles eram inspirados nos Titãs, nisso que nasceu com o ‘Cabeça’. No geral, é o que as pessoas citam.”

Sérgio Britto canta para o público do show do Titãs, que abrem para os Rolling Stones em São Paulo (Foto: Marcelo Brandt/G1)
Sérgio Britto e Branco Mello (Foto: Marcelo Brandt/G1)

“Acho que o disco provou que era possível fazer uma música com diversidade, tem rock, punk, reggae, eletrônico, mas com coesão. O legal era que cada vez que mudava o cantor, parecia outra banda, mas sem virar uma coisa estranha. Tudo com uma conexão, o que contribuía muito para o disco ficar interessante”, afirma Liminha.

Para Belloto, o trabalho ganha novo fôlego e atinge novos públicos, mesmo depois de tanto tempo do lançamento. “O disco sempre se revigora, tem um eco muito grande. Acho que ainda pode render mais frutos”, diz Bellotto.

Cabeça dinossauro

Lançamento: junho de 1986
Produção: Liminha, Pena Schmidt e Vitor Farias
Direção artística e musical: Liminha
Gravado no estúdio “Nas Nuvens”, no Rio de Janeiro entre março e abril de 1986

Titãs:
Arnaldo Antunes: voz
Branco Mello: voz
Charles Gavin: bateria e percussão
Marcelo Fromer: guitarra
Nando Reis: baixo (exceto em “Igreja”) e voz
Paulo Miklos: voz e baixo em “Igreja”
Sérgio Britto: teclados e voz
Tony Bellotto: guitarra

Pariticipações especiais:
Liminha: guitarra em “Família” e “O que”, percussão em “Cabeça dinossauro” e DMX, drumulator e efeitos em “O que”;
Repolho: castanholas em “Homem primata”

Faixas do LP original:

Lado A
Cabeça dinossauro (Paulo Miklos, Branco Mello e Arnaldo Antunes
AAUU (Sérgio  Britto e Marcelo Fromer)
Igreja (Nando Reis)
Políicia (Tony Bellotto)
Estado violência (Charles Gavin)
A face do destruidor (Paulo Miklos e Arnaldo Antunes)
Porrada (Arnaldo Antunes e Sérgio Britto)
Tô cansado (Branco Mello e Arnaldo Antunes

Lado B
Bichos escrotos (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Nando Reis)
Família (Arnaldo Antunes e Tony Bellotto)
Homem primata (Sérgio Britto, Marcelo Fromer, Nando Reis e Ciro Pessoa)
Dívidas (Branco Mello e Arnaldo Antunes)
O que (Arnaldo Antunes)